Lenda de Santa Iria

Colocado por paralaxe em Dec 21st, 2009 na(s) categoria(s) Imagens, Lendas, Lendas e Mitos, Vídeos. Pode seguir todos os comentários a este texto através de RSS 2.0. Pode comentar ou fazer trackback deste texto

Contam velhos documentos que na antiga Nabância nasceu um dia uma linda menina chamada Iria, ou Irene, filha de Hermígio e Eugénia, gente nobre da região. Educada por duas irmãs de seu pai, Iria entrou mais tarde para um mosteiro dirigido por seu tio materno, o abade Célio.

O abade apressou-se a ir falar-lhe:

- Minha filha… Sentes coragem de abandonar o mundo para te vires refugiar aqui?

A donzela sorriu timidamente.

- Senhor meu tio, saiba que estou disposta a seguir apenas a vontade de Deus.

Houve um ligeiro silêncio, em que os olhos do abade não deixavam o rosto da bela Iria. Por fim, falou:

- Louvo as tuas palavras. Velarei por ti. Mas… és nova e formosa… As poderosas tentações do mundo poderão vir ainda chamar-te!

Que estranha luminosidade transformou a expressão de Iria ao ouvir as palavras do abade Célio! A sua voz perdeu toda a timidez.

- Nada receie, senhor meu tio. As tentações do mundo poderão chamar-me, que eu não as escutarei. Sou uma serva do Senhor… e nada mais pretendo ser.

- Pois que se faça a vontade de Deus, minha filha… Vai juntar-te às tuas companheiras. Elas esperam por ti.

Serenamente, tal como tinha entrado, a sobrinha do abade Célio retirou-se. A tarde perdia aquele dourado fulvo que dá calor aos corpos e uma sensação de confiança a quem a contempla. E a bela Iria, de cabeça reclinada, olhos postos nas lajes do convento, foi juntar-se às companheiras, levando no coração e nos lábios a mais pura das orações. À sua volta tudo era tranquilidade. Iria tinha o pensamento todo entregue a Deus e usufruía uma felicidade quase extra-terrena!

Certa vez, porém, um caso imprevisto veio alterar um pouco essa tão doce tranquilidade. Era então senhor da Nabância o príncipe Castinaldo, casado com a bela Cássia e pai extremoso de Britaldo, inspirado trovador.

Pois, Britaldo costumava compor as suas trovas junto à pequena igreja de S. Pedro. Um dia em que lá se encontrava, viu passar um grupo de monjas. Entre elas, destacava-se pela sua juventude e beleza aquela que a história designou com o nome de Iria.

E nesse instante, segundo a lenda conta, o moço príncipe Britaldo ficou apaixonado por ela. Iria, de olhos baixos e coração ao alto, nem sequer deu pela sua presença. Mas Britaldo, louco de entusiasmo, sentiu ter encontrado aquela por quem ansiava o seu exigente coração e não mais a pôde esquecer. E de tal modo esse amor o abrasou, que caiu doente com febres altas e em perfeito delírio.

No palácio do senhor de Nabância entrou a dor e morreu a alegria. A mãe do príncipe velava com carinho à cabeceira do filho. Eram, porém, quase desconexas as frases que conseguiam ouvir-lhe:

- Aqueles olhos… Meu Deus! Será possível que ela não tivesse reparado em mim? Eu morro… eu sofro… Preciso vê-la! Preciso que ela me diga alguma coisa!

Aflitos, os pais de Britaldo chamaram físicos dos mais afamados. E a resposta destes, depois de observarem o doente, era sempre a mesma: «É preciso fazer-lhe a vontade. Chamem a donzela que originou tudo isto…»

Porém, o senhor de Nabância, sabendo já quem era aquela por quem seu filho se definhava, sentia-se impotente para lhe fazer a vontade.

Certa manhã, com o desespero na alma, ao príncipe Castinaldo pareceu que o filho estava um pouco mais sereno,e então ousou falar-lhe:

- Britaldo, é preciso que te cures! Afasta-a dos teus pensamentos, meu filho! Tu és um homem. Ela pertence a Deus!

Ele olhou o pai, num desvario, e como resposta gritou, soerguendo-se no leito:

- Vão buscá-la! Quero-a aqui, junto de mim! Não ouvem? Tragam-na, miseráveis! Ou preferem que eu morra? Eu não posso mais! Que Deus vos amaldiçoe se não me fizerem a vontade!

O príncipe Castinaldo endireitou-se na cadeira onde se sentara junto do filho. Sofria quase tanto como ele. Meneou a cabeça, levantou-se de súbito e, tomado de firme resolução, abandonou o aposento. Como num gemido, o filho ainda lhe disse:

- Pai! Eu amo-a com todo o resto da minha vida! Fazei-me a vontade, meu pai! Quero vê-la… vê-la!

Como resposta, apenas se ouviram os soluços abafados da princesa sua mãe e das suas damas de companhia…

Ainda o Sol abraçava com todo o ardor a terra sua enamorada, quando o senhor da Nabância saiu do gabinete onde estivera conversando com o abade Célio. Como pai e soberano, o príncipe Castinaldo expôs o pedido de seu filho enfermo e ajuntou que era essa também a sua vontade. Não sabendo opor-se a uma ordem dada sob a aparência de um pedido, o abade Célio, um tanto confuso, prometeu não só falar com a sobrinha, como ainda o seu próprio auxílio. Prometeu e cumpriu.

Iria ouviu o tio com assombro e aflição. Seria possível o que o seu cérebro entendia? Mas como havia ela de ser útil ao príncipe, sem fugir à sua promessa a Deus? Com voz serena e incisiva, o abade tentava explicar-lhe a situação:

- Compreendes, sobrinha das minha alma? O moço príncipe somente se poderá salvar se tu quiseres…

Iria afligia-se cada vez mais.

- Mas, senhor meu tio… Eu não posso amar o príncipe… Todo o meu amor é para Deus!

- Decerto… Decerto. Basta que lhe fales, que lhe sorrias… Ele salvar-se-á e a nada mais és obrigada.

Iria baixou a cabeça. Os olhos inundara-se-lhe de lágrimas.

- Que pena eu sinto de ele se ter apaixonado por mim!…

O abade tocou-lhe na fronte.

- Que queres? Há desvarios que atravessam o coração e corrompem a alma!

Iria levantou o olhar e foi poisá-lo num crucifixo de marfim colocado na parede. Dos seus lábios saiu uma inaudível oração. Depois, voltando-se para o abade que a interrogava com os olhos, decidiu-se:

- Vamos então, meu tio. Se é que eu, na verdade, o posso salvar!

E rematou num suspiro:

- Pobre príncipe!

A chegada do abade Célio e de sua sobrinha ao palácio senhorial constitui um acontecimento. Britaldo, avisado da presença de Iria, acalmou-se subitamente, e aos seus lábios assomou um sorriso de felicidade. Quis vestir-se e recebê-la na sua salinha predilecta.

Foi bem rara, na verdade, essa entrevista. Dois corações frente a frente, transbordando de amor. Um por uma estranha donzela, tão bondosa como linda. Outro, por Aquele cujo reino não é deste mundo. E o diálogo começou assim:

- Oh, senhora, como vos agradeço a vossa visita! Vedes bem?… A febre passou… Sinto-me outro! Estou salvo!

- Podeis agradecer a Deus, senhor meu príncipe…

- Não! Tudo quanto tenho a agradecer… é a vós… e ao vosso amor!

- Perdoai, senhor! Estais enganado no que respeita ao amor… Quero ser sincera porque vós assim o mereceis… Eu… nunca vos poderei amar!…

- O quê? Isso é possível?

- Sim, meu senhor!

- E porquê? Há outro homem na vossa vida?

- Ninguém mais, senhor. Apenas Deus. A Ele me consagrei e d’Ele serei para sempre. Por isso vos peço, meu bom príncipe, que vos cureis e que deixeis de pensar em mim.

- Aprecio a vossa sinceridade. Um pedido vosso é para mim como uma ordem. Porém, se me permitis imponho uma condição…

- Qual, senhor meu príncipe? Pensai bem no que ides dizer!

- Já pensei. Ouvi, minha bela Iria… Procurarei curar-me e voltar a ser o mesmo de outrora, já que assim o desejais. Procurarei até esquecer o meu amor por vós… desde que me permiteis que jamais dareis o vosso amor a outro homem…

- Assim o prometo. E Deus, que nos está escutando, não me deixará faltar à promessa!

- Adeus, Iria…

- Adeus, meu senhor…

O tempo foi passando sobre esta estranha entrevista. Britaldo, aparentemente, voltava a ser o mesmo de outrora. Porém, os seus versos tornaram-se mais tristes. Dir-se-ia que todos eles eram escritos com penas da própria saudade. Mas certo dia, vozes cruéis e invejosas meteram nos ouvidos do nosso príncipe que a jovem monja o atraiçoara, quebrando a promessa e amando outro homem…

Então o príncipe, de novo alucinado, logo ali jurou vingança. Um plano diabólico nasceu no seu cérebro doentio. Sentia necessidade de lavar a afronta. Ela enganara-o… Quebrara a promessa… Pois ela saberia quem era Britaldo, quando ultrajado!…

Sentindo na alma a cavalgada do ciúme e do desespero, o príncipe descobriu que Iria, depois das matinas, tinha por costume dirigir-se até junto do rio Nabão. Isso fez-lhe nascer a suspeita de que era esse o local dos seus pérfidos encontros… E, então, ali a esperou, dominando a sua impaciência.

Quando Iria chegou e o viu, fitando-a de olhos em brasa, sentiu gelar-se-lhe o coração. Todavia, conseguiu perguntar:

- Vós aqui, senhor meu príncipe? Que vindes fazer?

A resposta terrível não se fez esperar:

- Matar-vos, traidora! Castigar a vossa perfídia!

E mais rápido ainda do que a palavra, o príncipe Britaldo apunhalou aquela que fora a mais devota, a mais pura monja do seu tempo!

Cometido o crime, semilouco, Britaldo olhou a morta que sorria de olhos voltados para o Céu. E a tremer de medo, sentindo nos ouvidos um zumbido estranho, ele viu a necessidade de fazer desaparecer o corpo agora inanimado. Com gestos febris, aproximando-se de novo, despiu-lhe o hábito e atirou Iria às águas do Nabão. As águas do Nabão levaram-no à corrente do Zêzere, e este ao rio Tejo. Assim desaparecia o corpo da bela e pura monja chamada Iria, ou Irene.

Entretanto, o abade Célio descobrira o nefando crime; e, seguido pelo povo, começou a procurar por toda a parte o corpo daquela que fora objecto do amor e da loucura de um homem, embora todo o seu pensamento fosse apenas para Deus.

Esse corpo tão procurado, só o vieram encontrar diante da cidade de Scalabis. Porém, ele já não andava vogando ao sabor das águas. Deus fizera um grande milagre àquela que sempre O procurara servir e amar. O corpo de Iria estava encerrado num sepulcro de mármore, tão belo que olhos humanos não tinham visto ainda outro igual. E diante de tal prodígio, o povo ajoelhou maravilhado e rendido. E desde então, reza a lenda, a cidade de Scalabis ficou a chamar-se a cidade de Santa Iria — nome que mais tarde se transformou em Santarém.

É esta a lenda de Santa Iria. Seis séculos e meio mais tarde, outra santa quis venerá-la: a rainha Santa Isabel. De novo as águas do Tejo se abriram, revelando o milagroso túmulo. E a fim de que ficasse perpetuado para sempre tal milagre, a Rainha Santa aí mandou colocar um padrão que ainda hoje lá se encontra: o padrão de Santa Iria, na Ribeira de Santarém.

Lendas de Portugal
Gentil Marques, Rui Castro

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1 Comentário para “Lenda de Santa Iria”

  1. Helena Martins says:

    Adorei conhecer a lenda de S.ta Iria, pesquizei na Net, imprimindo sua foto, de imediato
    acendi 1 vélinha e rezei agradecer a Deus a felicidade ao te-la encontrado, e senti algo
    de muito belo e lindo que é a Fé, foi uma dádiva do Céu, e mais uma vez muito, muito
    obrigado meu Deus.
    Estou feliz por ser mais uma admiradora de S.ta Iria, só desejo a vossa proteção, e de
    todos, porque o que desejo para mim desejo para os outros, e estou muito feliz.
    Subescrevo–me com votos de Paz.

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