É costume atribuir à ortografia uma importância imerecida no concerto dos elementos que formam uma língua de civilização. Assim como o conceito de língua escrita não se esgota na chamada língua literária, assim o conceito de língua excede em muito o da sua produção por escrito. Ora, a ortografia é o conjunto de normas pelas quais uma sociedade, em determinada época, convenciona representar os sons da fala, os ritmos da prosódia e certas fórmulas especiais (siglas, abreviaturas, números, etc). Normas que, de tempos a tempos, têm de mudar para acompanhar a evolução mais célere da língua falada. E que, obviamente, para serem aceites e aplicadas, têm de estar sintonizadas com os hábitos linguísticos da sociedade que escreve. Sendo assim, é natural que a língua portuguesa tenha na sua história atravessado vários períodos ortográficos, e não é contra naturam que sociedades como a brasileira e a portuguesa disponham de códigos ortográficos um pouco diferenciados.
Período Fonético
Durante o português medieval, não se pode em rigor falar de uma ortografia nacional, mas observa-se que nos principais centros produtores de escrita (chancelarias, casas religiosas) eram respeitadas, a nível individual ou de grupo, certas constantes na correspondência grafema-fonema, as quais mudavam segundo os comportamentos do sistema fonológico.
Período Etimológico
A grande variabilidade que esta situação provocava deu origem, a partir do Renascimento, a uma reacção estabilizadora que procurou vincular a imagem gráfica do português não a uma representação dos sons modernos, mas à ortografia do latim, em tentativa de regresso às origens que nunca foi plenamente conseguida.
Período das Reformas
Com a chegada da República, Portugal procedeu a uma reforma ortográfica em 1911, que eliminou boa parte das grafias etimologizantes e melhorou a correspondência entre grafema e fonema. Como esta reforma não teve em consideração as particularidades fonológicas do português brasileiro, desencadeou uma longa série de medidas unilaterais e de tentativas goradas de acordo, que ocupariam todo o século. O único acordo que recebeu aprovação simultânea dos governos de Portugal e do Brasil foi o de 1990, mas não entrou em vigor por falta de aprovação em alguns países africanos de língua oficial portuguesa. Assim, o Brasil continua a reger-se por uma convenção ortográfica de 1943, e Portugal, com os países africanos, pelo acordo de 1945.
Ambas as ortografias vigentes têm espírito reunificador, mas a de 1943 aproxima-se mais da realidade sonora, suprimindo as consoantes não articuladas e acentuando de acordo com o vocalismo brasileiro. A de 1945 recupera consoantes etimológicas não acentuadas e rejeita o uso do trema; no Brasil, foi sentida como lusitanizante. O acordo de 1990 tem um espírito diferente, pois aceita a irreversível divergência das variantes nacionais no plano fonológico e propõe que elas sejam representadas por duplas grafias (na acentuação de vogais, nas consoantes articuladas ou não).
As principais inovações do acordo de 1990 situam-se em quatro áreas:
1 – as consoantes mudas (conservam-se quando são pronunciadas em todo o espaço geográfico da língua portuguesa: ficção, pacto, adepto, núpcias; suprimem-se quando não são proferidas em nenhuma das normas cultas: ação, afetivo, direção, adoção, ótimo; têm dupla grafia nos casos de pronúncia dupla: facto, receção em Portugal, contra fato, recepção no Brasil);
2 – a acentuação gráfica (têm dupla grafia as vogais seguidas de m e de n, nas proparoxítonas e paroxítonas: cómodo, efémero, fenómeno, génio, ténis em Portugal, contra cômodo, efêmero, fenômeno, gênio, tênis no Brasil, bem como as vogais finais das oxítonas: bebé, cocó em Portugal, contra bebê, cocô no Brasil);
3 – a hifenação, que é reduzida (entre prefixo terminado por vogal e palavra começada por r ou s, o hífen é substituído por duplicação da consoante: contrarregra, infrassom, e deixa de se usar na flexão de há de, hão de);
4 – o alfabeto, que passa a acolher três novas letras: k, w, y.
Dicionário Temático da Lusofonia
Texto Editores
Nota: texto escrito antes do Novo Acordo Ortográfico






