O grito de alarme soou. Ceuta ia ser atacada pelo rei de Portugal, cuja fama dizia ter sempre a vitória por companheira. Çala-ben-Çala, embora valente, estremeceu. Receava por si e pela praça. Fez reunir as suas tropas, ordenando que marchassem para as praias, no intuito de embaraçar o desembarque dos cristãos. Depois, providenciou para que as mulheres e crianças que lhe pertenciam e todos os seus haveres móveis ficassem em ordem de marcha à primeira voz.
O rebuliço era enorme. Um dos homens do rei de Portugal, sem esperar aviso, aproou à praia, e com tal desembaraço se houve que, pondo em fuga muitos muçulmanos, ajudou o desembarque dos companheiros. O embate foi terrível. Confundiam-se cristãos e mouros numa algazarra inferna. E os cristãos iam ganhando terreno. Iam entrar na praça. Desesperado, Çala-ben-Çala gritou para os seus:
- Alá assim o quer! Portanto, leais muçulmanos que me servis, salvai as vossas vidas se ainda é tempo!
El-rei de Portugal ainda estava a bordo. Mas os seus iam já a caminho do castelo. Aí, a luta foi ainda mais renhida. Lavrava por toda a parte a matança e a confusão. Çala-ben-Çala, que retirara para a fortaleza, vendo a causa perdida, enviou homens da sua confiança com as mulheres e os filhos, para os alojarem em lugar seguro. E montando num cavalo pôs-se em fuga.
À noite, el-rei de Portugal desembarcou. Mandou arvorar o estandarte sobre as muralhas da fortaleza e sobre a torre de ferro. Na torre, porém, muitos mouros estavam refugiados. Foi necessária a violência. Finalmente, depois de grande matança, os cristãos conseguiram o seu intento. A torre de ferro caiu também em poder dos portugueses.
Dispunha-se já D. João a dar a nova ao infante quando descobriu algo que se movia sob um monte de palha. Um dos seus homens dispunha.se a trespassá-lo com a espada, mas D. João susteve-o, dizendo:
- Não mateis assim quem tão mal se esconde!
Uma linda mulher saiu então do monte de palha e disse em bom castelhano:
- Podeis matar-me agora, se quiserdes!
Ouvindo e vendo tal desembaraço, D. João disse para aquele que a acompanhava:
- A presa é minha! Levai vós a parte que vos compete das riquezas do palácio.
O outro sorriu:
- Senor D: João, creio que escolhestes mal! Mas a vontade é vossa e resta-me cumpri-la.
Depois da conquista da cidade, ficaram os cristãos aprontando a mesquita maior para que alguns dos fidalgos mais valentes recebessem a ordem de cavalaria. Assim, nessa manhã de Agosto, as tropas portuguesas preparavam-se para uma festa tocante.
No aposento que lhe fora destinado, D. João sorria para uma jovem moura.
- Fátima! Logo que seja armado cavaleiro, pedirei a el-rei a mercê de baptizar-te.
Ela contemplou, enleada, o seu senhor.
- Farei o que for da tua vontade.
- Quero que sejas das nossas! Não me disseste que o teu pai era espanhol e cristão?
- Sim. Por isso vos compreendo tão bem. Meu pai chegou aqui e encontrou minha mãe, por quem se apaixonou. E em Ceuta ficou a viver, abandonando os seus e a sua pátria.
- Porque não levou com ele a tua mãe?
- Ela não quis baptizar-se.
- E tu? Queres?
- Quero o que o meu senhor quiser.
- Não sentes a necessidade de conhecer o meu Deus?
- Para mim, Deus é só um. O nome que lhe damos é que é diferente. Eu amo a Deus, ao Único! E amo-te, meu senhor, também! Para mais, creio que Abdul morreu.
- Abdul?
Fátima calou-se. D. João insistiu:
- Quem é Abdul?
- Aquele com quem eu ia casar.
- E gostavas dele?
- Não.
- Então porque o aceitaste?
- Era da casta da minha mãe. Ela assim o determinou, para que os meus filhos viessem com o sangue purificado.
- Porquê purificado?
- Bem sabes que o meu sangue não é puro. Meu pai era o único espanhol que estava na torre quando os vossos entraram.
- E tua mãe?
- Saiu com as mulheres de Çala-ben-Çala. Retiraram para uma povoação vizinha.
- Porque ficaste?
- Não sei porquê. Saí com elas… e fugi depois. Vim para junto de meu pai.
- Teu pai foi feito prisioneiro. Partirá connosco para Portugal.
- E eu irei com ele.
- Não, tu vais comigo! Não poderei separar-me de ti. Mas para tal terás de baptizar-te primeiro.
- Meu pai ficaria contente, se soubesse…
- Tentarei procurá-lo. Mas agora vou para uma grande cerimónia, à qual tenho pena de que não possas assistir.
Fátima curvou a cabeça. Ele, delicadamente, levantou-lha. Vendo-lhe lágrimas nos olhos perguntou, surpreendido:
- Porque choras?
Ela não respondeu logo. Ele insistiu:
- Quero conhecer todos os teus pensamentos!
A jovem moura suspirou. Depois, com voz trémula respondeu:
- Acreditas que te amo muitíssimo? Que morrerei feliz mesmo que não te torne a ver?
A surpresa de D. João subiu ao auge.
- Que dizes? Eu estarei aqui ao fim da noite.
Ela mordeu os lábios. Tentou desviar a vista. D. João enervou-se.
- Fátima, quero saber tudo! Tudo, ouviste?
Ela meneou a cabeça num gesto afirmativo.
- Então, fala!
A jovem sorriu entre lágrimas:
- Sabes… há pouco tempo… passou por aqui um velho que leu o meu futuro. Disse que eu havia de renegar a minha fé… Mas disse também que um dos nossos me mataria por causa de um homem poderoso que havia de chegar por mar.
D. João encrespou as sobrancelhas:
- E tu acreditaste?
Ela sorriu.
- E tu, não acreditas? Não és tu o homem poderoso que chegaste por mar? Não vou eu renegar a minha fé? Porque não há-de um dos meus, talvez Abdul, matar-me para que não me leves?
- Eu estarei sempre a teu lado!
- Menos esta tarde! Vou ficar só.
D. João impacientou-se.
- Compreendo o teu receio, mas não posso levar-te comigo. Deixarei alguém a tomar conta de ti. Além disso, Abdul, se ainda vive, não sabe onde te encontras. Amanhã mesmo virá um frade baptizar-te.
E acrescentou, sorrindo:
- É verdade: que nome cristão irá substituir o de Fátima, que é tão lindo?
Prontamente, a jovem respondeu:
- Ana Joaquina.
Ele franziu o nariz, num fingido amuo:
- Esse não! És mais bonira que esse nome.
- Era o da mãe do meu pai. Gostava de o usar. No entanto… se me deres outro…
- Vou pensar nisso. És tão bela que tudo me parece indigno de ti.
A jovem levantou os braços e enlaçou o pescoço de D. João.
- Vai, meu amor! Vai e volta depressa! Desejaria dormir para não contar as horas em que estaremos separados!
- Deixar-te-ei bem guardada. Adeus, meu amor!
D. João apertou a jovem contra si e beijou-a com arrebatamento. Depois saiu a caminho da mesquita maior, que fora preparada para a grande cerimónia.
Correu a tarde. A noite bateu à porta da casa onde Fátima se instalara. A jovem olhava o crucifixo que D. João lhe oferecera, e mudamente pedia-lhe protecção.
Um medo estranho apoderava-se dela à medida que a noite caía. De súbito, ouviu pronunciar baixo o seu nome. Reconheceu a voz. Era a de sua mãe. Alarmou-se, mas não conseguiu fechar os ouvidos.
Devagar, para que não a descobrisse o guarda, Fátima foi andando até à porta. Entreabriu-a e esgueirou-se por ela. A mãe de Fátima segurou-a por um pulso.
- Venho buscar-te!
Fátima alarmou-se.
- Para onde?
- Para junto dos nossos. Abdul está a dois passos de ti.
Fátima recuou.
- Não! Agora já não posso ir!
- Porquê? Lembra-te que estou a arriscar a vida e Abdul mais ainda do que eu. Queremos que venhas connosco.
Fátima abanou a cabeça.
- Estava escrito que um homem poderoso, vindo do mar, me levaria o coração e me daria a sua fé…
Nesse mesmo instante, Abdul suirgiu em frente dela e ciciou:
- E que um dos teus te daria a morte por seres infiel!
Juntando o gesto à palavra, Abdul apunhalou Fátima, que caiu no solo. A mãe teve um grito abafado. O guarda cristão acorreu. A moura já não teve tempo de levar a filha, que jazia no solo.
Abdul ia a fugir, mas o guarda alcançou-o e matou-o, enquanto a moura corria como possessa.
Nesse mesmo instante chegavam D. João e um frade. Ao saber Fátima ferida de morte, D. João ajoelhou junto da sua linda moura, e apertando-lhe as mãos implorou:
- Padre! Padre! Baptizai-a, por amor de Deus, enquanto ela tem vida!
O padre mandou buscar água e perguntou:
- Que nome lhe pomos?
Chorando e beijando a mão da jovem, D. João decidiu:
- Chamar-se-á Ana Joaquina! Ela queria ser Ana Joaquina!
Baptizou-a o padre em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A jovem abriu os olhos. Fitou-os longamente no seu bem-amado. Tentou dizer algo, que lhe morreu nos lábios quando a sua alma, abandonando o corpo, subiu em direcção ao Único Senhor. Deixou descair a cabeça e expirou. Assim fugia da terra aquela que viveu como Fátima e morreu como Ana Joaquina.
Lendas de Portugal
Gentil Marques, Cristina Valadas






