Lenda da Jovem Ana Joaquina

Colocado por paralaxe em Nov 24th, 2009 na(s) categoria(s) Imagens, Lendas e Mitos, Lusofonia. Pode seguir todos os comentários a este texto através de RSS 2.0. Pode comentar ou fazer trackback deste texto

O grito de alarme soou. Ceuta ia ser atacada pelo rei de Portugal, cuja fama dizia ter sempre a vitória por companheira. Çala-ben-Çala, embora valente, estremeceu. Receava por si e pela praça. Fez reunir as suas tropas, ordenando que marchassem para as praias, no intuito de embaraçar o desembarque dos cristãos. Depois, providenciou para que as mulheres e crianças que lhe pertenciam e todos os seus haveres móveis ficassem em ordem de marcha à primeira voz.

O rebuliço era enorme. Um dos homens do rei de Portugal, sem esperar aviso, aproou à praia, e com tal desembaraço se houve que, pondo em fuga muitos muçulmanos, ajudou o desembarque dos companheiros. O embate foi terrível. Confundiam-se cristãos e mouros numa algazarra inferna. E os cristãos iam ganhando terreno. Iam entrar na praça. Desesperado, Çala-ben-Çala gritou para os seus:

- Alá assim o quer! Portanto, leais muçulmanos que me servis, salvai as vossas vidas se ainda é tempo!

El-rei de Portugal ainda estava a bordo. Mas os seus iam já a caminho do castelo. Aí, a luta foi ainda mais renhida. Lavrava por toda a parte a matança e a confusão. Çala-ben-Çala, que retirara para a fortaleza, vendo a causa perdida, enviou homens da sua confiança com as mulheres e os filhos, para os alojarem em lugar seguro. E montando num cavalo pôs-se em fuga.

À noite, el-rei de Portugal desembarcou. Mandou arvorar o estandarte sobre as muralhas da fortaleza e sobre a torre de ferro. Na torre, porém, muitos mouros estavam refugiados. Foi necessária a violência. Finalmente, depois de grande matança, os cristãos conseguiram o seu intento. A torre de ferro caiu também em poder dos portugueses.

Dispunha-se já D. João a dar a nova ao infante quando descobriu algo que se movia sob um monte de palha. Um dos seus homens dispunha.se a trespassá-lo com a espada, mas D. João susteve-o, dizendo:

- Não mateis assim quem tão mal se esconde!

Uma linda mulher saiu então do monte de palha e disse em bom castelhano:

- Podeis matar-me agora, se quiserdes!

Ouvindo e vendo tal desembaraço, D. João disse para aquele que a acompanhava:

- A presa é minha! Levai vós a parte que vos compete das riquezas do palácio.

O outro sorriu:

- Senor D: João, creio que escolhestes mal! Mas a vontade é vossa e resta-me cumpri-la.

Depois da conquista da cidade, ficaram os cristãos aprontando a mesquita maior para que alguns dos fidalgos mais valentes recebessem a ordem de cavalaria. Assim, nessa manhã de Agosto, as tropas portuguesas preparavam-se para uma festa tocante.

No aposento que lhe fora destinado, D. João sorria para uma jovem moura.

- Fátima! Logo que seja armado cavaleiro, pedirei a el-rei a mercê de baptizar-te.

Ela contemplou, enleada, o seu senhor.

- Farei o que for da tua vontade.

- Quero que sejas das nossas! Não me disseste que o teu pai era espanhol e cristão?

- Sim. Por isso vos compreendo tão bem. Meu pai chegou aqui e encontrou minha mãe, por quem se apaixonou. E em Ceuta ficou a viver, abandonando os seus e a sua pátria.

- Porque não levou com ele a tua mãe?

- Ela não quis baptizar-se.

- E tu? Queres?

- Quero o que o meu senhor quiser.

- Não sentes a necessidade de conhecer o meu Deus?

- Para mim, Deus é só um. O nome que lhe damos é que é diferente. Eu amo a Deus, ao Único! E amo-te, meu senhor, também! Para mais, creio que Abdul morreu.

- Abdul?

Fátima calou-se. D. João insistiu:

- Quem é Abdul?

- Aquele com quem eu ia casar.

- E gostavas dele?

- Não.

- Então porque o aceitaste?

- Era da casta da minha mãe. Ela assim o determinou, para que os meus filhos viessem com o sangue purificado.

- Porquê purificado?

- Bem sabes que o meu sangue não é puro. Meu pai era o único espanhol que estava na torre quando os vossos entraram.

- E tua mãe?

- Saiu com as mulheres de Çala-ben-Çala. Retiraram para uma povoação vizinha.

- Porque ficaste?

- Não sei porquê. Saí com elas… e fugi depois. Vim para junto de meu pai.

- Teu pai foi feito prisioneiro. Partirá connosco para Portugal.

- E eu irei com ele.

- Não, tu vais comigo! Não poderei separar-me de ti. Mas para tal terás de baptizar-te primeiro.

- Meu pai ficaria contente, se soubesse…

- Tentarei procurá-lo. Mas agora vou para uma grande cerimónia, à qual tenho pena de que não possas assistir.

Fátima curvou a cabeça. Ele, delicadamente, levantou-lha. Vendo-lhe lágrimas nos olhos perguntou, surpreendido:

- Porque choras?

Ela não respondeu logo. Ele insistiu:

- Quero conhecer todos os teus pensamentos!

A jovem moura suspirou. Depois, com voz trémula respondeu:

- Acreditas que te amo muitíssimo? Que morrerei feliz mesmo que não te torne a ver?

A surpresa de D. João subiu ao auge.

- Que dizes? Eu estarei aqui ao fim da noite.

Ela mordeu os lábios. Tentou desviar a vista. D. João enervou-se.

- Fátima, quero saber tudo! Tudo, ouviste?

Ela meneou a cabeça num gesto afirmativo.

- Então, fala!

A jovem sorriu entre lágrimas:

- Sabes… há pouco tempo… passou por aqui um velho que leu o meu futuro. Disse que eu havia de renegar a minha fé… Mas disse também que um dos nossos me mataria por causa de um homem poderoso que havia de chegar por mar.

D. João encrespou as sobrancelhas:

- E tu acreditaste?

Ela sorriu.

- E tu, não acreditas? Não és tu o homem poderoso que chegaste por mar? Não vou eu renegar a minha fé? Porque não há-de um dos meus, talvez Abdul, matar-me para que não me leves?

- Eu estarei sempre a teu lado!

- Menos esta tarde! Vou ficar só.

D. João impacientou-se.

- Compreendo o teu receio, mas não posso levar-te comigo. Deixarei alguém a tomar conta de ti. Além disso, Abdul, se ainda vive, não sabe onde te encontras. Amanhã mesmo virá um frade baptizar-te.

E acrescentou, sorrindo:

- É verdade: que nome cristão irá substituir o de Fátima, que é tão lindo?

Prontamente, a jovem respondeu:
- Ana Joaquina.

Ele franziu o nariz, num fingido amuo:

- Esse não! És mais bonira que esse nome.

- Era o da mãe do meu pai. Gostava de o usar. No entanto… se me deres outro…

- Vou pensar nisso. És tão bela que tudo me parece indigno de ti.

A jovem levantou os braços e enlaçou o pescoço de D. João.

- Vai, meu amor! Vai e volta depressa! Desejaria dormir para não contar as horas em que estaremos separados!

- Deixar-te-ei bem guardada. Adeus, meu amor!

D. João apertou a jovem contra si e beijou-a com arrebatamento. Depois saiu a caminho da mesquita maior, que fora preparada para a grande cerimónia.

Correu a tarde. A noite bateu à porta da casa onde Fátima se instalara. A jovem olhava o crucifixo que D. João lhe oferecera, e mudamente pedia-lhe protecção.

Um medo estranho apoderava-se dela à medida que a noite caía. De súbito, ouviu pronunciar baixo o seu nome. Reconheceu a voz. Era a de sua mãe. Alarmou-se, mas não conseguiu fechar os ouvidos.

Devagar, para que não a descobrisse o guarda, Fátima foi andando até à porta. Entreabriu-a e esgueirou-se por ela. A mãe de Fátima segurou-a por um pulso.

- Venho buscar-te!

Fátima alarmou-se.

- Para onde?

- Para junto dos nossos. Abdul está a dois passos de ti.

Fátima recuou.

- Não! Agora já não posso ir!

- Porquê? Lembra-te que estou a arriscar a vida e Abdul mais ainda do que eu. Queremos que venhas connosco.

Fátima abanou a cabeça.

- Estava escrito que um homem poderoso, vindo do mar, me levaria o coração e me daria a sua fé…

Nesse mesmo instante, Abdul suirgiu em frente dela e ciciou:

- E que um dos teus te daria a morte por seres infiel!

Juntando o gesto à palavra, Abdul apunhalou Fátima, que caiu no solo. A mãe teve um grito abafado. O guarda cristão acorreu. A moura já não teve tempo de levar a filha, que jazia no solo.

Abdul ia a fugir, mas o guarda alcançou-o e matou-o, enquanto a moura corria como possessa.

Nesse mesmo instante chegavam D. João e um frade. Ao saber Fátima ferida de morte, D. João ajoelhou junto da sua linda moura, e apertando-lhe as mãos implorou:

- Padre! Padre! Baptizai-a, por amor de Deus, enquanto ela tem vida!

O padre mandou buscar água e perguntou:

- Que nome lhe pomos?

Chorando e beijando a mão da jovem, D. João decidiu:

- Chamar-se-á Ana Joaquina! Ela queria ser Ana Joaquina!

Baptizou-a o padre em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A jovem abriu os olhos. Fitou-os longamente no seu bem-amado. Tentou dizer algo, que lhe morreu nos lábios quando a sua alma, abandonando o corpo, subiu em direcção ao Único Senhor. Deixou descair a cabeça e expirou. Assim fugia da terra aquela que viveu como Fátima e morreu como Ana Joaquina.

Lendas de Portugal
Gentil Marques, Cristina Valadas

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