Dezedores / Declamadores

Colocado por em Nov 23rd, 2009 na(s) categoria(s) Imagens, Língua Portuguesa, Linguística, Semântica. Pode seguir todos os comentários a este texto através de RSS 2.0. Pode comentar ou fazer trackback deste texto

A propósito do I Encontro de Dezedores de Poesia, que vai ter lugar na Ilha Terceira (Açores) no próximo mês de Setembro, lembrei-me instintivamente dos grandes declamadores portugueses que foram João Vilaret, Ary dos Santos, Mário Viegas, além dos declamadores (felizmente ainda vivos) Carmen Dolores, Victor de Sousa e o próprio José Fanha, que participará no encontro.

Não sei se o encontro é mesmo de Dezedores, pessoas que “dizem” poesias, ou se se trata de um encontro de Declamadores, pessoas que “declamam” poesias, e alguém achou por bem utilizar este verbo (embora não conste no Dicionário da Língua Portuguesa 2006 da Porto Editora), em detrimento do outro ao qual estes grandes declamadores nos habituaram e deleitaram.

Julgando tratar-se de mais uma facilitação da vertente brasileira da Língua Portuguesa, procurei na net os termos “dezedores” e “declamadores”; grande foi o meu espanto (honestamente o admito): a maioria das referências a “dezedores” são de páginas com domínio (.pt); a grande maioria de referências a “declamadores” são de páginas com domínio (.br). “E esta, hein??”, como diria o saudoso Fernando Pessa…

Entre “dizer poesias” e “declamar poesias” vai uma distância incomensuravelmente grande. Uma poesia “dita”, não vale nada; nem sequer pelo esforço de a dizer; quem “diz poesias” deveria informar o público meia hora antes, para dar tempo ao auditório de fugir da aleivosia.

Ouvir “declamar poesias”, é outra coisa! A sala está cheia; os poemómanos quietos e calados, expectantes; as moscas, se as há, diminuem o seu zunido inquietante; só um homem treme!

O declamador pega no livro, ou na folha; funde a sua alma com a alma do poema, e declama:

O podengo que em mim habita, pôs-se a uivar;
Nesta noite sem céu ergueu-se a voar;
À roda do EU girou mil vezes;
Mil vezes rodou sem parar.

“Quem foi que ousou conspurcar,
Com badernas que não entendo,
Um acto de sentir do mais profundo?”

E o homem que treme disse, tremendo:

«Fui eu!» (pesaroso e rubicundo)

“De quem são as melas de uma Língua só caroço?
De quem as jarguilhas que leio e ouço?»

Disse o podengo, e rodou mil vezes,
Mil vezes rosnou iracundo e grosso.

«Quem veio dizer o que só eu posso,
Que choro sem que nunca alguém o visse
E percorro os dedos p’lo sentir profundo?»

E o homem que treme, gemeu e disse:

«Fui eu!» (pesaroso e rubicundo)

Mil vezes do peito as mãos ergueu,
Mil vezes ao peito as remeteu,
E disse no fim de tremer mil vezes:

«Aqui, quem geme, são milhões como eu:
sou um povo que não quer o falar que é teu;
E mais que o podengo, que a minha alma teme
E voa nas pregas do sentir profundo,
Manda a vontade, que me mantêm ao leme,
De uma grei com falar sem fundo!»

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