Associação Girassol

Colocado por paralaxe em Nov 23rd, 2009 na(s) categoria(s) Artigos, Entrevistas, Imagens, Solidariedade. Pode seguir todos os comentários a este texto através de RSS 2.0. Pode comentar ou fazer trackback deste texto

O sonho antigo

«Combater a pobreza, proteger e preservar a saúde e o avanço da educação de mulheres e crianças de origem africana, particularmente mas não exclusivamente de língua portuguesa», são objectivos da Associação Girassol, fundada há quatro anos em Inglaterra.

A presidente é Alda Vieira, angolana de Luanda, que se desdobra entre o voluntariado, o ser mãe e esposa e a carreira profissional. Um sonho antigo, nascido em Angola e materializado em Londres, onde reside há mais de 20 anos. Admiradora de Nelson Mandela, Luther King, Graça Machel e Oprah Winfrey, Alda Vieira conversou com a África21 nos escritórios da associação Girassol, em Newham, no leste de Londres.

«O espaço tem de ser muito bem aproveitado, tem de ser partilhado», vai dizendo Alda Vieira enquanto nos guia pelos escritórios partilhados com outras organizações dedicadas à causa da solidariedade e da justiça social. Estamos em Newham, leste de Londres e área de forte concentração da comunidade angolana.

Somos apresentados a Katia Correia, único quadro assalariado e ao voluntário Rui Costa. O voluntariado é, sublinha Alda Vieira, a alma do empreendimento. «Move-nos a vontade de trabalhar em prol da comunidade, das comunidades». Solicitações, são inúmeras, tendo-se por vezes de priorizar as urgências. Expandir além de Londres e estabelecer vínculos com congéneres angolanas estão entre os objectivos. A aldeia de Asseque, em Benguela, é já um alvo definido.

África21 – Fundar a ONG Girassol foi uma ideia luminosa?

Alda Vieira – Foi uma ideia luminosa, fruto de um desejo interior muito forte e antigo. Há muito que tinha pensando em criar uma associação de apoio a mulheres e crianças em Angola. As circunstâncias actuais da minha vida obrigaram-me a fazê-lo em Londres.

De onde surgiu o clic?

Da vontade de fazer algo pela comunidade lusófona. As comunidades dos PALOP, sem excluir Portugal e o Brasil. Tive o apoio de duas outras fundadoras, a Carla Almeida e a Manuela Diogo, pioneiras comigo. Estou-lhes muito grata. Sozinha não teria podido avançar e estabelecer a Girassol há já quatro anos.

Quais são as principais solicitações?

Apoio no acesso aos benefícios sociais. São pessoas muito pobres, com enormes carências financeiras, de educação, problemas linguísticos, problemas de habitação, com grandes dificuldades no campo do emprego.

Os serviços de interpretação são importantes…

Exactamente. O Rui Costa é uma das pessoas com a tarefa de interpretar, para que tenham acesso aos serviços disponíveis em pés de igualdade com todos os outros cidadãos. É uma missão de solidariedade, pela justiça social, porque de outro modo, estariam excluídos.

O esforço é fundamentalmente voluntário…

Neste ano conseguimos empregar uma técnica de desenvolvimento social, a primeira pessoa assalariada da Girassol. Porém, até ao momento todos nós trabalhamos voluntariamente para a associação, desde os directores aos associados de base. Temos um grande sentido de solidariedade, que nos leva a sacrificar o nosso tempo em prol desta causa. O voluntariado é o alicerce da associação, sem o qual seria impossível operar. Estou extremamente grata ao esforço e dedicação de todos, porque muitas vezes não é fácil conciliar trabalho, família, universidade, com as actividades da associação. Mas temos uma equipa forte e determinada.

Com quantos voluntários contam neste momento?

Doze pessoas que nos ajudam regularmente dependendo da disponibilidade.

Também é voluntária…

Não poderia deixar de ser. Tenho como responsabilidade coordenar as actividades e projectos da associação, direccionar e planear futuras estratégias de desenvolvimento, e a responsabilidade fundamental de manter o nosso foco e visão na realização dos objectivos da Girassol dentro e fora da associação.

A Girassol faz uma abordagem de género?

Não. Estabelecemos a Girassol para apoiar a mulher e a criança, mas demo-nos conta de que as necessidades não têm género: desemprego, dificuldades com a língua inglesa e a consequente falta de acesso aos recursos disponíveis.

Há contudo actividades concebidas a pensar nas mulheres…

Temos lavores e trabalhos manuais aos sábados. As pessoas sentem-se muito unidas, é uma forma de terapia ocupacional. De um modo geral, as que participam são pessoas de alguma forma isoladas pelo factor língua ou por outros problemas ou as duas coisas. Isso permite-lhes um ambiente de harmonia, de convívio social, o que é muito importante. Neste momento frequentam os ateliês entre oito a doze pessoas e a tendência é para aumentar.

Especificando um pouco mais, que trabalhos são esses?

Escolhemos um tema por trimestre. Tivemos costura, em que foram feitos saquinhos de pano e de feltro, coisas muito interessantes, muito bonitas. Agora estamos a trabalhar em joalharia, brincos e colares. Estamos a aprender e a ensinar técnicas novas e este poderá ser o ponto de partida para um pequeno negócio, uma pequena cooperativa, algo assim.

A vossa acção centra-se em Londres?

Sim, de momento atendemos a área de Londres. Queremos ampliar mas, por enquanto, não é possível.

Com que apoios, designadamente financeiros, contaram e contam?

Sobrevivemos graças ao apoio do Governo britânico. Também da Câmara de Newham e de organizações de beneficência e solidariedade social.

Qual a comunidade que mais procura os vossos serviços?

É a angolana, que entre as africanas é a maioritária. Estão concentrados precisamente em Newham, onde estamos baseados. Portugueses, do continente e da Madeira, há muitos na área de Stockwell. E depois estão espalhados por outros pontos de Londres.

Interagem com as embaixadas, instituições representativas dos países de origem?

Temos tido contactos pontuais com as embaixadas de Angola, Moçambique e Portugal e estamos empenhados numa maior aproximação, darmos a conhecer melhor o nosso trabalho.

Continuam a chegar muitos angolanos ao Reino Unido?

Não temos dados estatísticos. As próprias circunstâncias em que chegam dificultam esses dados, mas sabe-se que continuam a chegar angolanos. Não estão registados e portanto é difícil saber quantos são.

Portanto, ilegais.

Somos neutros, ajudamos toda a gente. Quando há questões de imigração, encaminhamos para os lugares adequados. Dentro da nossa esfera, apoiamos e damos toda a ajuda possível sem olhar ao estatuto legal.

A ONG foi alguma vez apresentada em Angola?

Estivemos em Luanda, em Abril do ano passado, para fazer a entrega da cadeira de rodas da pequena Esmeralda. Foi também uma visita de pesquisa para identificar áreas de convergência, apoios, parceiros, com vista a projectos futuros. Por exemplo, neste momento, estamos à procura de apoios, patrocínios, para desenvolver um projecto com a escola de Asseque, em Benguela.

Porquê a escola de Asseque e em Benguela?

Durante o tempo que estivemos em Angola, fomos apoiadas pela LARDEF/Liga de Deficientes Angolanos, de quem veio o pedido de ajuda sobre o caso da pequena Esmeralda. Como a Girassol procurava identificar escolas e crianças carenciadas, a LARDEF prontificou-se a ajudar e sugeriu que visitássemos orfanatos em Benguela e a aldeia de Asseque.

Quais foram os casos mais dramáticos com que depararam?

Em Asseque existem aproximadamente 30 crianças deficientes com pólio, uma doença que está erradicada em muitos países, mas que afecta adultos e crianças nesta povoação. Durante a nossa visita, fomos simpaticamente acolhidos por uma audiência de adultos e crianças, na maioria deficientes de pólio, que nos falaram das dificuldades de locomoção. Muitas crianças não têm muletas ou cadeiras de rodas, arrastam-se pelo chão para chegar à escola. Alguns são carregados às costas pelos familiares. Quando nos estávamos a despedir da população, um dos meninos aproximou-se de mim e da minha colega e disse «Senhora, olha só a minha cadeira… (reparámos que estava a cair aos pedaços), preciso de uma cadeira nova, pode-me ajudar? Por favor!». Dissemos que iríamos tentar ajudar quando chagássemos a Londres. Fiquei com um nó na garganta. Penso muito em cumprir essa promessa e poder levar quantas cadeiras for possível para todos em Asseque.

Fonte (condensado): África21 – 11/05/2009

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